Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

VAMOS BRINCAR À SOLIDARIEDADEZINHA

  1. Sempre que abro a minha caixa de correio electrónico sou inundado por uma miríade de emails que pedem, rogam ou exigem a minha presença nos mais diversos recantos, iniciativas ou ‘eventos’ que nem a mais profícua imaginação pode supor. Ele é bailes de associações recreativas desesperadas por fundos, concertos ditos de ‘solidariedade’ pelas causas mais inomináveis, palestras, conferências, encontros, debates, aulas, opiniões, casamentos, baptizados e afins. Para já de fora, funerais e exéquias. A tudo sou obrigado a dar resposta. Não por profissionalismo, mas por educação. Será que quem me convida tem a noção de que, se a tudo acedesse, passaria fora de casa mais de, seguramente, 100 dos dias úteis do ano, o que quer dizer, quase um terço do dito? E isto se não contar que a maioria destas requisições são para os quatro cantos do país e arredores. Ora, se o teletransporte ainda não foi inventado, teria que somar nalguns casos pelo menos dois dias perdidos a viajar: um para ir, outro para regressar. Tudo junto, 300 dias a entreter os Amigos da Ovelha do Carquejão, a Associação de Pacientes com o Síndrome do Cravanço, a Escola Disto, a Universidade Daquilo, o casamento da D. Ermengarda que tanto gosta do Tudo o Que te Dou. E tudo isto, está bom de ver, a minhas próprias expensas. Ora, contas feitas, restam-me uns faustosos 65 dias para trabalhar, uma vez que, claro, todas estas nobres-iniciativas-sem-fins-lucrativos repartem o lucro, se o houver, por uma entidade qualquer que desconheço. Se o não houver, pelo menos lá esteve o Abrunhosa entre foguetes e sardinhas, ou canapés e intelectuais a entreter senhoras de vestidos plissados e cavalheiros que entram engravatados e saem com a dita na cabeça a jeito de bandolete. E isto, presumo, é resultado que chegue para quem tanto me convida. Para mim não chega seguramente. É que arranjei esse fastidioso vício que é ter de comer. Ao qual se podem juntar todas as despesas comuns aos mortais. Vou passar a pedir ao meu advogado que advogue gratuitamente, ao meu talhante que forneça a pá-de-porco a custo zero e ao aguadeiro que passe lá em casa para verter a dita na banheira pelos meus lindos olhos/óculos. Ou então, porque não, ‘promover um evento’ em meu próprio benefício.
  2. Não que os convites não me honrem ou distingam. Pelo contrário. O problema é separar o trigo do joio. E assim sofrem todos: os justos, cuja causa até pode ser meritória, os pecadores, que não me põem a vista em cima e eu, que passo os meus dias a responder a emails, cartas e faxes sem qualquer proveito para ninguém. O problema deste crescendo de pedidos está na banalização de um conceito que me enerva e sempre me enervou: a ‘solidariedade’. Todos sabemos que a ‘solidariedade’ não passa, na maioria dos casos, de uma oportunidade para saírem da toca as múmias das revistas e artistas incandescentes em promoção. Assim como a Madonna e a Jolie adoptam pretinhos como adereços, por cá, nós, mais modestos, fazemos o Dia da Água, do Vinho e do Cão Paralítico. Todos somos supostos ter muita pena e fazer discursos que nem a RTP-dos-floreados-e-do-sorriso-plástico conseguia nos anos 80. Depois, temos que fingir diversão para mais uma fotografia e posar com alguém que, sinceramente, detestamos. Para esse filme não contem comigo porque é um peditório que fez furor com Supico Pinto e o seu mavioso Movimento Nacional Feminino e cuja piedade sempre rimou com hipocrisia. Dizia José Barata Moura, e muito bem, “Vamos brincar à caridadezinha/ Festa, Canasta e muita comidinha”. Já António Lobo Antunes, igualmente bem, sugeria às ‘tias’ que cada qual tivesse o seu pobre privado para assim o exibirem aos domingos. Será que alguém percebeu que ironizavam?
  3. Este é o Portugal dos chás e das palestras. O país sentado, agora de pé para dançar a Macarena e o Comboinho em favor dos penitentes do por ‘um mundo melhor’. Outra frase que já entrou no vocabulário colectivo e que quer dizer: Para o Meu Mundo Melhor. Ora o meu mundo seria muito melhor se fizessem o favor de ler este artigo e me deixassem literalmente em paz. À minha maneira lá vou contribuindo para que os mundos que trago em mim dêem uma alguma ajuda aos mundos dos outros, tantas vezes mais cinzentos e pobres. Só que o faço nos meus termos. Sem publicidade, flashes, arautos ou discursos penosos. Para mim, e para muitos felizmente, a minha música chega. Para outros, felizmente também, a minha música irrita tanto quanto a ‘solidariedade’ me irrita a mim. E assim é que deve ser. Ficamos pois quites.
  4. Não tem nada a ver, ou talvez sim, mas existe um estudo (sic) num site norte-americano que se debruça sobre questões linguísticas onde a palavra “desenrascanço” aparece anotada como intraduzível e como uma das mais curiosas do léxico de uma língua viva. Todos sabemos o que quer dizer “desenrascanço”, mas duvido que alguém consiga explicar o espírito da coisa a alguém que não Luso. Isto é, a alguém que esteja nos antípodas do não-planeamento, que é o que a palavra, no fundo, quer dizer. Acho que a este termo devíamos acrescentar o “cravanço”, essa ultra portuguesa especialidade que faz de dez milhões simultaneamente cravas e cravados. Eu incluído, que ando por aí a cravar descontos nos instrumentos que compro lá para o estúdio. Mas acho que apanhamos os tiques uns dos outros, numa repetição de padrões, como diriam os sociólogos. E foi depois de muito ter sido cravado que me habituei a lidar com essa horda que, invisível, me assalta o computador para tudo e para nada. Aprendi que a palavra “Não” é das mais desenrascantes que existe. E podem crer que a uso na exacta proporção dos cravanços com que me honram.

 

 

 

Pedro Abrunhosa.

 

Porto, 01 de Maio de 2009

 

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:28
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